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Você provavelmente já andou pela cidade e viu imagens pintadas em muros, paredes de prédios ou em qualquer espaço público. O pensamento de muitas pessoas gira em torno de termos como vandalismo e pichação. Entretanto, o grafite, como a arte de rua popularmente é conhecida, passa longe de depredar o patrimônio arquitetônico-social. Essa forma de expressão encontra nas artes visuais e plásticas suas principais referências. E isso tem um porquê. As cores, texturas e pinturas nervosas são algumas das principais características de Jean-Michel Basquiat, artista de vanguarda e um dos principais nomes do neoexpressionismo, que ficou conhecido mundialmente por ser um dos homens negros a levar o grafite para dentro dos museus e elevá-lo à categoria de arte.

O que era, antes, considerado pela crítica como uma estética depreciativa e inferior, então, com Basquiat, virou uma nova vertente da arte contemporânea, quebrando paradigmas e rompendo com a hegemonia das escolas tradicionalistas de arte. Jean-Michel, um jovem gênio inquieto, criativo, entrava para o seleto grupo de artistas renomados do cenário artístico, fazendo história e inspirando várias gerações.

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Seu método era composto por pinceladas irregulares, rabiscos indecifráveis, personagens esqueléticos, rostos distorcidos por expressões de pavor, personalidades negras do entretenimento em meio ao caos, cenas da vida urbana e colagens com mensagens reflexivas. Tudo retratado sempre em cores fortes e telas grandes, para provocar o público com o estranhamento de suas obras. Por isso, seu trabalho foi chamado de primitivismo intelectualizado, influenciando grande parte da street art contemporânea.

Nascido em 1960, em Nova York, Basquiat era um afro-descendente da classe média alta, mas acabou largando a vida confortável que tinha em seu lar aos 17 anos para viver nas ruas da big apple e enfrentar o racismo que a comunidade negra sofria na época. Foi morar com amigos e, para conseguir se sustentar, pintava camisetas e as vendia na cidade. Com o objetivo de espalhar suas obras, criou junto com um amigo a marca SAMO e, em pouco tempo, tornou-se famoso e um dos mais célebres artistas plásticos e grafiteiros da história da arte.

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De 1982 a 1985, seu trabalho conquistou espaço em importantes galerias e museus dos Estados Unidos, Canadá, Holanda, Alemanha e Japão, atraindo uma legião de admiradores e compradores. Ele revolucionou o modo de ver a pintura no ocidente e fez parcerias com outros gênios da época, como Andy Warhol – quem o apadrinhou. Basquiat apresentou uma nova linha de pensamento dentro da arte, quebrando de uma vez por todas com todos os tabus impostos até então pela crítica elitista.

Expressava seu sentimento de exclusão em cada pincelada, mesmo no auge de sua carreira. De caráter excêntrico, praticava excessos em resposta ao racismo dos norte-americanos. Morreu cedo, aos 28 anos de idade, em agosto de 1988, por overdose de heroína. Postumamente, o acervo do artista esteve presente nas mais importantes mostras de arte ao redor do mundo.

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No Brasil, foi homenageado duas vezes: uma em 1996, com uma sala na 23ª Bienal de São Paulo; a outra, em 1998, com uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Sua história foi retratada no filme biográfico Basquiat, de Julian Schnabel, com Jeffrey Wright, dando vida ao artista, e David Bowie, como Andy Warhol.

Após quase 30 anos de sua morte, aos 27 anos, em 1988, 40 obras do artista serão expostas no Museu de Artes de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) neste ano. As pinturas e desenhos vão estar inseridas no tema História da Escravidão, reflexão proposta pela instituição ao longo de todo 2018. Quem for da cidade ou estiver de passagem, pode prestigiar a arte desse gênio, que há 20 anos não tinha uma mostra no país.

Amizade com Warhol e o reinado da The Factory

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Com certeza, dois dos maiores nomes do cenário artístico de Nova York do século passado causaram frisson nas noites nova-iorquinas. A parceria da dupla foi além do campo de trabalho e se estendeu até longas noitadas regadas a muito álcool e drogas no estúdio fundado pelo pai da Pop Art chamado The Factory.

O estúdio era famoso por festas extravagantes, cheias de artistas modernos, boêmios e excêntricos, como Allen Ginsberg, Salvador Dalí, Truman Capote, Bob Dylan e Micky Jagger. Foi ali que inúmeros músicos começaram suas carreiras, como o grupo The Velvet Underground. Além disso, era um lugar em que que violava as normas sociais vigentes no período, como nudez, orgias sexuais e relaçōes homossexuais.

Infância e influências

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Filho de Gerard Jean-Baptiste, ex-ministro do interior do Haiti, e de Mathilde Andrada, de origem porto-riquenha, Basquiat era o primeiro dos três filhos do casal. Aos três anos de idade, sentava em frente à televisão e ilustrava os personagens de desenhos animados. Mais tarde, seu hobby preferido passou a ser visitar o Museu de Arte Moderna de New York e observar todas as produções lá expostas. Após um atropelamento grave, sua mãe lhe deu o livro de anatomia Gray’s Anatomy, que influenciaria toda sua arte na forma como retrataria seus personagens.

Quando seus pais se divorciaram, na década de 1970, foi para Porto Rico com o pai e as irmãs, voltando para os Estados Unidos aos 17 anos para frequentar a Edward R. Murrow High School, abandonando-a ao final do curso para se dedicar à arte.